Xenófanes e o Imago Dei

Em que medida somos feitos semelhantes a Deus?



Xenófanes de Cólofon (570-475 a.C.) foi um filósofo, teólogo e poeta de origem jônica (atual Anatólia, na Turquia). Dedicou parte de sua vida a crítica sobre o conteúdo teológico contido nos cantos aos deuses do panteão grego. Esta teologia mitológica era um forte elemento para a identidade das civilizações helênicas e, antes de poetas como Homero e Hesíodo a salvaguardarem através da escrita, eram cantadas em versos que facilitavam a sua memorização. Contudo, as crises sofridas no período alertaram boa parte da inteligentsia helênica, a qual passou a entender que tal religião produzia efeitos deletérios, pois não colaborava com o projeto de progresso social que almejavam, pois celebravam o encesto, a rapina e a mentira, dentre outras imposturas e vícios.  Outro problema claro que enfrentavam era a contínua atmosfera de incerteza produzida por guerras e disputas entre famílias da aristocracia. Homens como Platão, Parmênides, Sócrates, e Xenófanes se destacaram entre os teólogos mais eminentes deste período.


Estes filósofos acreditavam que as leis da natureza tinham sido estabelecidas por uma Razão de ordem superior, assim, um só Supremo arquiteto poderia oferecer a estabilidade e o equilíbrio ao mundo. Contudo, aos olhos destes e de muitos outros filósofos a razão tem sua morada na alma (mesmo para os materialistas desta época) e as paixões (ira, preguiça, medo, volúpia) no corpo. Para os ascetas, aqueles que aspiram por elevação do seu espírito, a nossa existência material é breve, ao passo que a espiritual é longa. No cristianismo tradicional, na ocasião da morte, nosso corpo fica para trás, e só então obteremos a revelação. Será que o nosso corpo tão instável e propenso a corrupção é onde reside, a imagem, ou a Ideia, de Deus? Forma e Ideia (eidos) são sinônimos para os gregos e isso fica claro na concepção platônica da criação dos homens e dos outros animais.

Xenófanes destaca-se dentre toda a tradição pelo combate ao antropomorfismo divino. De acordo com Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), Xenófanes teria sugerido que se os animais tivessem o dom da arte, representariam os seus deuses em forma de animais, ou seja, à sua própria forma. Esta doutrina está presente, em muitos ramos do monoteísmo, na recusa de representar artisticamente o Divino, pois Ele não é o que vemos, mas muito mais. João Calvino (1509-1564 d.C.), o teólogo que apresentou as doutrinas mais claras da reforma protestante, estava consciente de que a Imago Dei do Homem reside na alma e abrange tudo que distingue o Homem dos animais.


A Divindade pregada por Xenófanes em nada se assemelha aos deuses homéricos sempre a perambular pelo mundo sob o império das paixões, ou seja, longe da razão. Só existiria, então, um deus único, que é eterno, não-gerado, estável e puro. Parmênides denominaria esta divindade como o Uno. Esta visão abre as portas para o surgimento de um humanismo grego, preocupado em unir os homens e não os dividir em contendas sangrentas ou seitas obscuras.

Doctor Filos